Café com conselheiro: Christianne Maroun entrevista José Pugas

Em mais uma edição do Café com Conselheiro, Christianne Maroun, coordenadora do Climate Finance Hub Brasil, conversa com José Pugas, uma das principais lideranças de sustentabilidade do setor financeiro. Cientista político, com mais de 15 anos de experiência em sustentabilidade e finanças, Pugas liderou projetos no Brasil e na América Latina e hoje atua ativamente em think tanks e fóruns internacionais dedicados a finanças regenerativas, soluções baseadas na natureza e transição justa.

Ao longo da entrevista, Pugas fala sobre o papel das gestoras de investimentos sustentáveis, o uso de taxonomias para harmonizar critérios de sustentabilidade, e a importância de dados, metodologias e ferramentas como ACT, TransitionArc e a futura Resilience Arc para qualificar decisões de investimento, incorporar riscos climáticos e físicos e reduzir as “zonas cinzentas” do mercado de capitais.

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CHRISTIANNE MAROUN (CM): Explica para a gente o que é uma gestora de investimentos sustentáveis, como a Finance in Motion, e como vocês definem o que é sustentável. E, comparando com o investimento “padrão”, se vale a pena, se não vale… Pela sua experiência em investimentos sustentáveis, como é que isso tem funcionado?

JOSÉ PUGAS (JP): Vamos pensar da seguinte forma: o mercado de capitais sempre se desenvolveu pensando em como comprar tempo. No final das contas, é isso. Se eu tenho uma empresa que levaria 20 anos para conseguir investir o que precisa de forma orgânica, o mercado financeiro consegue antecipar esses 20 anos. Ele antecipa recursos.

Nós avaliamos quais empresas e projetos “merecem” esse capital, quais têm maior capacidade de gerar resultado, prosperar e entregar retornos. Nosso papel é mobilizar esse capital na direção desses projetos e empresas. Quando o mercado entende que uma empresa ou projeto vale mais do que outro, o investidor confia que fizemos a melhor análise possível para alocar recursos ali. Por isso eu costumo dizer que, mais do que lidar com dinheiro, o mercado de capitais lida com tempo: encurta caminhos por meio da alocação de capital.

CM: Para a pessoa ou a empresa perceber o lucro antes, é isso?

JP: Mais do que antecipar o lucro, é permitir que ela invista antes nos elementos necessários para gerar esse lucro. Em muitos casos, são projetos que nem sequer sairiam do papel sem esse capital. A gestora possibilita que eles comecem a existir.

Quando você fala de uma gestora de investimentos sustentáveis, além dos critérios tradicionais – competitividade, exequibilidade, lucratividade, capacidade de execução, entre outros indicadores econômicos – entram outras perguntas. Por exemplo: esse projeto tem uma visão de prosperidade atrelada? Está vinculado a um desenvolvimento territorial saudável? Gera impacto positivo no mundo? Paga as próprias contas ou terceiriza seus custos sociais e ambientais?

CM: E vocês têm toda uma metodologia própria para identificar isso?

JP: Temos, sim. Cada gestora acaba desenvolvendo metodologias próprias para responder a essas perguntas. E é isso que diferencia uma gestora de investimentos sustentáveis de uma gestora tradicional: não são as perguntas que ela deixa de fazer, mas as perguntas adicionais que ela faz.

Lucratividade, retorno, risco, tudo isso sempre será avaliado. Estamos falando de dinheiro, e dinheiro não aceita desaforo. Só que, quando usamos o capital para acelerar futuros que queremos ver acontecer, temos de ser ainda mais prudentes com esse dinheiro. Por isso, além dos indicadores financeiros, trazemos metodologias que incorporam impacto e sustentabilidade.

Cada gestora desenha sua abordagem, e a Finance in Motion não é diferente. Mas todas acabam se conectando a taxonomias, como a brasileira, por exemplo. Elas são fundamentais para comunicar o que é sustentável. Imagine se eu fizesse uma pergunta totalmente diferente da sua: como compararíamos resultados? Como diríamos que um ativo é sustentável de forma minimamente objetiva?

A taxonomia harmoniza perspectivas. Sem ela, “sustentável” ficaria algo totalmente subjetivo, e não é. O que vai variar de uma gestora para outra, a partir das taxonomias, é a visão de mundo: que mundo se quer promover com o capital?

Você pode ser uma gestora que apenas evita investir no que faz mal. Ou que até investe em atividades potencialmente negativas, mas compensa. Ou uma gestora que não investe no que promove dano e, melhor ainda, direciona capital para aquilo que impacta positivamente o mundo. É nesse desenho de estratégia que entram as metodologias próprias.

A Finance in Motion tem uma visão clara de gerar impacto positivo, não apenas de evitar impacto negativo. A metodologia é toda parametrizada para que isso aconteça.

CM: O que você falou faz todo sentido. Até na TransitionArc, que é a plataforma na qual colocamos os resultados de pesquisas realizadas pelo CFH– que, inclusive, subiram agora, na semana anterior à COP30 –, a gente consegue mudar os parâmetros e dar maior peso a alguns critérios. É a visão da gestora: ela pode decidir colocar mais peso em metas de redução de emissões, ou mais peso em indicadores sociais ou de governança. Aí você ajusta os pesos conforme a finalidade do investimento.

JP: Exato. Mas os eixos são os mesmos, e é aí que entra a taxonomia. Estamos criando uma linguagem comum. Mesmo que gestoras, investidores e empresas tenham visões diferentes, ao menos conseguimos colocá-los dentro de uma mesma linguagem. Essa é a grande importância das taxonomias: reduzir as zonas cinzentas que muitas vezes impedem que investimentos sejam feitos. Como eu disse, dinheiro não aceita desaforo. Para o mercado, a zona cinzenta é sempre precificada de forma conservadora.

CM: Ou até pior: a zona cinzenta entra como se fosse pior do que realmente é.

JP: Exatamente. Ou, às vezes, ela é simplesmente ignorada. Se algo não é mensurado, tende a ser deixado de lado e outros ativos são priorizados. Com risco climático aconteceu algo assim por muito tempo. Como ninguém sabia exatamente como calcular, o tema era tratado de forma superficial. Hoje isso não é mais possível. A realidade se impôs.

E há questões menos “extremas”, mas igualmente impactantes. Quando você tem um cenário pluviométrico irregular, isso impacta hidrelétricas, navegação fluvial, preço da energia, custo do transporte. Um aumento de secas na bacia do Amazonas, por exemplo, afeta diretamente a produtividade da Zona Franca de Manaus e a competitividade das empresas que estão lá.

O problema é que esperamos tempo demais para que o problema ficasse óbvio antes de agir. Agora, o mercado de capitais como um todo entende que o risco existe, que o impacto é real, e que precisa incorporar fatores climáticos na gestão de risco. Ferramentas como a TransitionArc, trazidas pelo Climate Finance Hub, são importantes porque nos ajudam a traduzir esse risco numa linguagem que o mercado entende. As finanças climáticas não estão “inventando” o clima; estão apenas incorporando algo que já existe, construindo uma linguagem adequada para enxergar melhor o que sempre esteve ali.

CM: Você já falou um pouco da taxonomia brasileira. Quer aprofundar a importância de ela ter sido aprovada? Ela é compatível com outras taxonomias do mundo que você conhece? Faz sentido ser compatível?

JP: A taxonomia brasileira deu muito trabalho, e isso é um elogio. Entre as taxonomias, ela é extremamente detalhada. Reduziu zonas de sombra ao definir, por exemplo, o que é manejo sustentável para eucalipto e outras atividades específicas. Entrou em particularidades que, no fim, aumentaram a competitividade da economia brasileira. Foi muito bem pensada. Identificaram obstáculos baseados tanto em desconhecimento sobre como fazemos nossa contabilidade no Brasil quanto em disputas comerciais e de geopolítica. A taxonomia veio para enfrentar essas zonas cinzentas, que alimentavam percepções equivocadas sobre nossa competitividade, e organizá-las dentro de uma estrutura que é globalmente reconhecida e interoperável.

Ela tem uma base científica sólida, dialoga com taxonomias mais avançadas – como a europeia – e, ao mesmo tempo, coloca “o pé no chão” ao responder, de forma objetiva, questões que afetam a competitividade da indústria, do mercado e da agricultura brasileiros. Com uma taxonomia estruturada assim, o investidor estrangeiro consegue entender onde está investindo no Brasil, que aquilo é sustentabilidade de fato, e que está integrável aos seus próprios padrões.

CM: E demonstrável. Fica claro o porquê é sustentável, interoperável com as outras…

JP: Exatamente. Evidenciável. A articulação que foi feita – pela equipe do governo brasileiro, pela UNEP FI, pelo mercado financeiro que participou da construção – merece aplausos. Claro, é um organismo vivo. Vai ser aperfeiçoado, mas não radicalmente alterado, porque isso criaria insegurança jurídica, algo que estamos vendo acontecer, em certa medida, na Europa, com discussões que geram idas e vindas. O Brasil aprendeu com essa experiência e conseguiu produzir uma taxonomia de alta qualidade. Agora, cabe ao mercado financeiro entender, abraçar e adotar essa taxonomia da melhor forma possível em seus instrumentos financeiros.

Do ponto de vista de uma gestora estrangeira – a Finance in Motion é uma gestora alemã, europeia, que opera ativamente na América Latina e que pretende ampliar sua atuação no Brasil, que é um grande mercado para isso –, eu posso dizer com tranquilidade: sem taxonomia, não há como trazer capital estrangeiro em escala. Com uma taxonomia robusta, eu tenho segurança jurídica e científica para saber onde estou investindo. Então, parabéns. Parabéns, Brasil. Dá orgulho nessas horas.

CM: Super orgulho. E você acha que faltam dados para decisões sobre investimentos e financiamentos sustentáveis? Como resolver isso? Você acha que as nossas análises no Climate Finance Hub ajudam de fato? As instituições financeiras vão usar o que estamos produzindo?

JP: Eu acho que ferramentas e informações como essas cumprem duas funções importantes. Primeiro, alimentam um universo de dados que são cientificamente precisos, didáticos e apresentados numa linguagem que conversa com o mercado financeiro. Segundo, e talvez mais decisivo, “tiram a desculpa” de que “não há informação suficiente”. E isso é muito relevante num contexto de urgência climática, de biodiversidade e social e econômica. Não estamos falando de impacto meramente disruptivo em cadeias produtivas, mas de impacto terminativo em alguns casos. Ferramentas como ACT e TransitionArc tiram o apoio daqueles que se escoram nas desculpas e criam oportunidades para quem quer dar o próximo passo. Além disso, ajudam a nivelar o campo de jogo. Quando você tem informações comparáveis, fundos e investidores conseguem alocar capital com base em evidências.

Hoje, você pode ter uma informação produzida pela gestora, outra pela própria empresa, outra por uma agência de rating e mais uma por uma terceira parte independente. Como comparar tudo isso? Ter uma base única, com evidência científica, como é o caso da ACT, uma metodologia europeia, mas tropicalizada para a realidade brasileira, é essencial. A comparabilidade é um requisito básico de qualquer metodologia científica, seja para pesquisa acadêmica, seja para investimentos. Isso traz uma vantagem enorme, mas também uma responsabilidade: saber ler essas informações.

CM: E não é simples, a metodologia é complexa. Por isso a gente se esforça para divulgar e explicar o máximo possível, justamente para as pessoas começarem a entender o que é a ACT. E quanto mais a ACT for utilizada, mais interessante para o Hub e para o que a gente produz.

JP: E ainda mais interessante para o mercado financeiro. Os maiores beneficiários são as empresas que acessam o mercado de capitais e têm alta competitividade em termos de descarbonização e clima, e o próprio mercado, que passa a ter uma bússola mais precisa. Se o mercado é o maior interessado, precisamos multiplicar esse conhecimento o máximo possível, para que se torne um padrão ouro. E ainda por cima, vale lembrar: não é o mercado financeiro que está pagando por isso. É gratuito.

CM: E as empresas estão recebendo muito bem. Até as empresas de óleo e gás, que naturalmente têm notas piores em transição climática por características do setor, receberam super bem. Porque conseguem ver na cadeia onde precisam melhorar e o que precisam aprimorar em disclosure. Elas conhecem o jogo.

JP: Conhecem. E as empresas brasileiras são muito boas nesse jogo. Isso é um fator de competitividade que a gente subestima. Nós fomos bons jogando no campo da descarbonização e da transição climática. Nossas empresas são fortes, inclusive as de óleo e gás.

Mas como defender isso sem ter uma plataforma, sem ter informação estruturada? É aí que entra o valor de metodologias e dados robustos: permitem defender, com base científica, aquilo que a gente, como brasileiro, já sabe empiricamente e que muita gente lá fora também já sabe.

CM: É como a análise do setor elétrico que o Climate Finance Hub fez. A gente já sabia que o resultado seria muito positivo, melhor do que a média global, mas ter isso no papel, em números, com metodologia séria, faz toda a diferença.

JP: Exato. É o melhor remédio contra a síndrome de vira-lata. Metodologias e informações como essas mostram que não só temos capacidade, como em muitos casos somos os mais capazes.

CM: Na primeira reunião do Conselho do CFH, você trouxe a importância da avaliação do risco climático físico. E faz todo sentido, já que as mudanças climáticas estão aí. Nossa financiadora, a Climate Arc, vai lançar em breve a plataforma Resilience Arc, que vai trazer o risco físico climático por ativo das empresas. Eles mostraram a versão piloto no Sustainable Innovation Forum, em São Paulo. Você vê a empresa e o que está interferindo nela, na localização e nos ativos, em termos de risco físico climático. E a ideia é que o Climate Finance Hub também entre nessa agenda. Você acha que isso vai atender às suas expectativas?

JP: Eu torço muito para que atenda, porque isso é uma urgência do mercado. Vamos ter a introdução do IFRS S1 e S2 para empresas listadas no Brasil, uma verdadeira revolução. Somos o primeiro país a dizer que será obrigatório, e isso vai gerar um “tumulto” positivo no mercado.

Riscos aos quais todos os ativos estão submetidos, mas que não eram comunicados de forma clara ou eram tratados genericamente, vão ganhar visibilidade. Se não tivermos ferramentas como a Resilience Arc, corremos o risco de continuar com divulgações genéricas. Quando eu deixo claro os riscos físicos a que as empresas e seus ativos estão expostos, levo ao analista de mercado a pergunta incômoda: como você está gerenciando isso?

Gero também, para o investidor, a cobrança: “como você não percebeu isso antes?”. Quando um evento extremo acontece, o questionamento vem. Com informações estruturadas, começamos a construir uma governança antecipatória, fundamental para qualificar e quantificar riscos. O impacto disso é direto no preço da ação, na precificação de uma dívida, na alocação de capital. Quanto mais clareza sobre os riscos, melhor a precificação. Hoje, essa clareza ainda é limitada. E, quando eu trago o risco físico climático à visibilidade pública, a pergunta seguinte é inevitável: sua gestão de riscos é eficiente?

CM: Porque não é só estar em um local que pode inundar ou sofrer um evento extremo. É saber como é a gestão de risco da empresa. Com a ACT, a gente consegue tangenciar isso. Há perguntas sobre como a empresa gerencia risco físico, se tem plano de adaptação, entre outras. Mas é muito diferente ver isso numa plataforma em que você enxerga exatamente os riscos a que ela está submetida.

JP: Sem dúvida. Eu tiro o discurso genérico da política, o nível tático do processo, que nem sempre se traduz em evidências concretas, e levo o debate para o nível operacional do ativo. Fica muito mais fácil conversar.

ACT com Resilience é uma combinação perfeita. Espero que o mercado saiba apreciar isso. Ele vai ter de apreciar em algum momento; o problema é que quase sempre isso acontece depois de perder dinheiro.

O Brasil sempre viu seu clima como uma bênção: temos sol, chuva, recursos naturais abundantes. Agora, precisamos enxergar também o risco que isso traz, sobretudo num cenário de mudança climática, e traduzir esse risco para o mercado de capitais. Se falharmos nisso, falharemos com nosso dever fiduciário. Negligenciaremos o dever que justifica, inclusive, a cobrança de taxa de administração.

Então, espero sinceramente que o mercado aprenda não pela dor da perda, mas pela capacidade de uma análise técnica sólida e de uma gestão prudente dos investimentos, incorporando riscos climáticos em plataformas que, ao que tudo indica, serão bem desenhadas e amigáveis ao mercado financeiro.

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